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alkionehoxe/poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Tiago de Compostela
Assim pudesse o poema
Como a pedra esculpida
Do pórtico antigo
Ter em si própria a mesma
Compacta alegria
Cereal claridade
Ante o voo da ave
Do espírito que ergue
Os pilares da nave
In Ilhas, Obra Poética III,
p. 298
As
Amoras
O meu país
sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que
não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu
país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas
silvas.
Raramente falei do meu
país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu
país o céu é azul.
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos
destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque
estamos
Nus em sangue, embalando a
própria dor
Em frente às madrugadas do
amor.
Quando a manhã brilhar
refloriremos
E a alma possuirá esse
esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Data
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
Cantar
Tão longo
caminho
E todas as portas
Tão longo o caminho
Sua sombra errante
Sob o sol a pino
A água de exílio
Por estradas brancas
Quanto Passo andado
País ocupado
Num quarto fechado
As portas se fecham
Fecham-se janelas
Os gestos se escondem
Ninguém lhe responde
Solidão vindima
E não querem
vê-lo
Encontra silêncio
Que em sombra tornados
Naquela cidade
Quanto passo andado
Encontrou fechadas
Como vai sozinho
Desenha as paredes
Sob as luas verdes
É brilhante e fria
Ou por negras ruas
Por amor da terra
Onde o medo impera
Os olhos se fecham
As bocas se calam
Quando ele pergunta
Só insultos colhe
O rosto lhe viram
Seu longo combate
Silêncio daqueles
Em monstros se tornam
Tão poucos os homens
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