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alkionehoxepoesía
Xavier
Zarco
À GUISA DE MANIFESTO ANTI-CHORAQUELOGONÃOBEBENSES
Rapidamente, talvez por hábito, mas sobretudo por
força do convívio, comecei a gostar muito de mim,
mas hoje, neste preciso instante em que alinhavo estas palavras, pela
natureza das coisas, gostava de ser o Almada, o Almada Negreiros.
Pena não possuir poderes mediúnicos.
Mas uma coisas eu sei, tenho a convicção que,
querendo algo, vou à luta, não fico sentado nesta
minha confortável cadeira à espera que me a
venham trazer. Se nem o raio do gato se anicha a meu lado, tendo de o
convocar para o efeito e ele, ao que parece, bem aprecia que lhe passe
a mão pelo pêlo, quanto mais o resto.
Assim, quero, e vou, bem ou mal, deixar para a posteridade o meu
próprio manifesto anti, anti-qualquercoisa. Já se
verá anti-quê.
Tudo ocorre na terra que fica exactamente nos antípodas
daqueloutra descrita pelo José Gomes Ferreira no seu
João Sem Medo. Esta é conhecida por ser aquela em
que os seus habitantes, por preguiça, não
aproveitam as lágrimas, autênticas
pérolas, para a sua sede matar, embora persistam em as
chorar.
Também esta localidade, como não poderia deixar
de o ser, o que seria catastrófico para carteiros e
cartógrafos, geógrafos e demais necessitados
dessas preciosas tabuletas. Chama-se, ou baptizaram-na como tal,
Choraquelogonãobebes, sendo os seus autóctones,
por força da construção em uso e
hábito das palavras, intitulados de
choraquelogonãobebenses.
Eis pois o título, tão preciso nestas coisas da
prosápia. Manifesto Anti-choraquelogonãobebenses,
ou algo à guisa de.
Comecemos pois.
Plim.
Toca a sineta em casa da família mais importante, porque
única, em Choraquelogonãobebes, a
família Antesquietoqueparado.
“Então, mulher, há almoço ou
não”, questiona vociferando Patriarca
Antesquietoqueparado.
À palavra almoço respondem todos:
Primogénito, Finigénito e demais familiares
ascendentes, descendentes, colaterais e seus respectivos emplastros que
entraram, ou estão em vias de entrar, para a
família por via matrimonial.
É vê-los em lenta correria que o
cansaço congénito para mais não
dá, para se abuzeirarem à mesa para o propalado
repasto. E tudo porque é domingo. E domingo é dia
de almoço alargado, avantajado em casa do titular do
supra-cargo de cabeça de família.
Após as travessas se distribuírem harmoniosa e
estrategicamente sobre a mesa, eis que se atiram aos manjares.
Alarvemente, claro, mas à velocidade, melhor dizendo,
à celeridade a que estavam condicionados.
“Porra, rapaz, limpa o ranho do nariz”, diz
Patriarca Antesquietoqueparado.
Petizdomeiogénito Antesquietoqueparado ficou quase
paralizado.
Logo, logo Matriarca Antesquietoqueparado tratou de dar ao rapazito um
lencinho bordado às quadrinhas cor-de-rosa com cada linha
à sua medida, que os de redondilha maior é algo
que só se bordam noutros locais, sem falar na menor, que em
desuso está e assim deve ficar.
Ranhoca em puro alexandrino limpa, garfada pronta a caminho da boca.
Era por estas e por outras que
Primogénitadespromovidapormotivodesermenina
Antesquietoqueparado se revoltava, ela que tecia em perfeito metro
toalhinhas para a arca do enxoval, onde se acumulavam
metáforas, alegorias, para referenciar somente os mais
conhecidos motivos de colchas e cortinados.
“Um dia destes”, pensava com seus
botões, “alguém me libertará
do jugo dos berros do meu pai e conselhos da minha
mãe”.
Desta última, não herdara a filha o apelido de
solteira: Submissaporqueprendada.
Posto isto, afirmo, convicto, abaixo os
Choraquelogonãobebenses e, em particular, embora exclusivos,
os Antesquietosqueparados.
Que a ranhoca corra e a arca se abra.
Esqueçam os berros, os murros na mesa de Patriarca
Antesquietoqueparado.
Ignorem as ponderadas e prestimosos palavras e gestos de Matriarca
Submissaporqueprendada Antesquietoqueparado.
O final, moral da história, dos arrazoados de
Naftalinavô Expatriarca Antesquietoqueparado, que tira
solenemente a dentadura arritmicamente versilibrista antes de falar,
neguem, comentem.
Acreditem que há mais mundo para além das
fronteiras de Choraquelogonãobebes.
Abaixo, repito, os que tendo sede rejeitam as lágrimas que
choram.
Afirmem, em alto e bom som, o não à
convenção imposta pela hierarquia
Antesquietoqueparado.
Não à seborreia servilista a que vos querem
submeter.
Não ao aplauso fácil porque há receio
de dizer que essa não é a via e que há
outra.
Não ao muro que limita o horizonte
choraquelogonãobebense.
Antes um cálice de lágrimas que esta sede em
deserto de opinião expressa.
Há que dizer não ao comodismo gerador de versos
equivocados.
Há que dizer não à palavra presa,
castrada de asas, oculta na gaiola enformada pelos cumprimentos de
circunstância.
Plim.
Toca a sineta em casa de Patriarca Antesquietoqueparado. Este exige
rigoroso silêncio. Que existam outras formas de ver as
cousas, ainda admitia, mas pronunciá-las é que
não, jamais e em tempo algum.
Deu voz de comando para que as palavras, todas as palavras, sem
excepção, se desnudassem para que fossem, de
imediato, purificadas. E as que resistiam, que teimavam em ter sentido,
que recebessem mordaças e que fossem conduzidas
às masmorras.
“Se não comeste a sopa, não comes a
sobremesa”, disse, solenemente, Patriarca
Antesquietoqueparado.
Plim
Não cedamos à chantagem corporativa do poema
escorraçado por ser prosa, nem acumulemos a
descrença nas gavetas bafientas da
resignação.
Elevemos bem as vozes e digamos não às
sevícias sobre as palavras.
Não deixemos as nossas carcaças para os abutres
das letras esclerosadas.
Pum.
Abaixo, enfim, os galináceos, todos, cacarejadores
monocórdicos de falsas, forjadas simpatias.
Digo, para o tacho com eles.
Choraquelogonãobebes será, enfim, liberta do jugo
dinástico da prole Antesquietoqueparado.
D
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